Palavras que curam a alma

    Fico admirada com o poder que a escrita tem de trazer vida. Aquilo que para o mundo pode parecer uma bobagem, para um sonhador pode ser a chave da existência, uma vida talvez limitada, mas que, por meio da escrita ou da leitura, se torna algo libertador.

    Há um pensamento que circula por aí, dizendo que escritores escrevem sobre si. Talvez seja verdade... ou talvez, meia verdade. O que sei é que escrever é uma forma de libertação. É dizer o que não pode ser dito, expressar o que não cabe em palavras. Uma arte silenciosa, como todas as outras.

    Confesso, no entanto, que embora escrever traga vida, também traz desespero. É um ato solitário, e a solidão me assusta. Mas, paradoxalmente, eu gosto dela. Vai entender... Sou confusa. Por isso leio e escrevo: para calar os pensamentos caóticos demais que vivem em mim.

    Demorei muito tempo para entender o que se passava na minha mente, mas sempre me maravilho com o cuidado de Deus em meio à confusão. Ele é capaz de organizar as maiores bagunças do nosso ser. Sua graça abundante redime até os mais falhos de nós. E, no entanto, quantas vezes usei a escrita para fugir da dor, esquecendo que havia um Deus pronto para curar desde as feridas pequenas até as mais profundas? É curioso... bastava dizer "Pai, me ajuda", mas preferi escrever livros inteiros  que se perderam dentro de mim ou nos incontáveis documentos guardados, ou, de modo mais íntimo, nos meus queridos diários.

    Há uma frase de Clarice Lispector que me toca profundamente (mesmo sem conhecer profundamente sua obra):


"Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto – e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio terrivelmente perigoso: dele arranco sangue. Sou um escritor que tem medo da cilada das palavras: as palavras que digo escondem outras – quais? talvez as diga. Escrever é uma pedra lançada no poço fundo."

    Identifico-me com esse medo. Escrever é, muitas vezes, se despir. Expor sentimentos ocultos. Colocar para fora aquilo que mal conseguimos entender dentro de nós. Tentamos justificar nossos erros com palavras e, mesmo assim, nos revelamos frágeis, mesquinhos e humanos.

    Dessa vez, esta escrita não busca salvar a alma do leitor. Ela deseja apenas aliviar a bagagem de quem escreve, para que não pese tanto no meio da madrugada, quando a alma parece querer escapar do próprio corpo. E, mesmo sendo uma contradição, esse escritor ainda espera que suas palavras simples que sejam possam curar outras almas, como têm curado a sua.


Que estas palavras encontrem abrigo em você, como encontraram em mim.

Com carinho e caos,
— A escritora das madrugadas 🌙

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